
“O governador José Serra perguntou se o carro era bom porque ele queria recomendar um para a prima dele. Olha, Serra, eu acho que você deveria não só indicar o carro para a sua prima como também dar um de presente para a sua mulher. Aí, o segundo turno nessa fábrica vai ser apenas uma questão de tempo”.
Foi de sua forma bem particular que Luiz Inácio Lula da Silva, o convidado mais ilustre da Ford no lançamento do novo Ka, “estimulou” o crescimento da produção na fábrica de São Bernardo do Campo, SP, e foi ovacionado pelos trabalhadores da unidade.
E analisando a importância da comitiva presidencial (ainda estavam na cerimônia o governador de São Paulo, José Serra, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o presidente da Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia) presente no evento, é possível traçar um paralelo entre a pompa da estréia do novo Ford Ka, que agora tem motor flex 1.0 l de até 73 cv (R$ 25 190) ou 1.6 l de 110 cv (R$ 31 800) com álcool, e a dura missão que ele tem pela frente: encarar os líderes de mercado, Volkswagen Gol e Fiat Palio, cujas vendas ultrapassam as 20 000 unidades mensais, e desbancar o Celta, o modelo mais vendido da Chevrolet no Brasil, que supera a casa das 10 000 unidades/mês.
“Depois de quatro anos, agora temos um carro que briga à altura no segmento que verdadeiramente mexe no marketing share (participação de mercado) das empresas”, confirma Antonio Baltar, gerente de marketing da Ford, lembrando da chegada da nova geração do Fiesta, o carro de maior volume da montadora no Brasil, com cerca de 6 000 unidades comercializadas por mês.
Para isso, a fábrica cresceu para abrigar os volumes de produção superiores e o Ka mudou totalmente. Por fora, praticamente só restaram a porta e o pára-brisa. Os novos traços não lembram muito o visual polêmico da versão lançada em 1997. “O novo modelo segue o estilo Kinetic, a nova linguagem de design que a Ford segue no mundo inteiro. O carro é “clean” (“limpo”), mas não é espartano”, analisa João Marcos Ramos, gerente de design da montadora.
Realmente. De espartano, por fora, o Ka não tem nada. A frente transmite um ar “amigável”, com dois grandes faróis e uma grade em harmonia com o resto do conjunto. Nas portas, tudo continua igual. Do meio para trás, porém, estão as maiores mudanças. O Ka cresceu e teve uma nova traseira acoplada ao conjunto. A caída reta da versão anterior foi trocada por um pára-choque mais robusto e por uma tampa de porta-malas maior. “Agora temos capacidade para cinco passageiros. Antes, cabiam apenas quatro pessoas”, explica Milton Lubraico, gerente de engenharia da Ford.
O espaço para quem anda atrás é um dos destaques. Pessoas com 1,80 m, sérias candidatas a um torcicolo no primeiro Ka, agora se acomodam tranqüilamente no canto do banco traseiro. Um dos motivos é a “espichada” da plataforma, que rendeu 16,9 cm extras ao modelo. “O atual carro é uma evolução da plataforma do Ka anterior. Mas consideramos uma nova plataforma”, comenta José Carlos Frias, gerente de plataformas da Ford.
Mas as mudanças não trouxeram só boas novidades. O acabamento piorou em relação à versão anterior – as rebarbas e a qualidade do plástico são os fatores mais gritantes – e o interior continua apertado para o motorista, que enxerga a coluna A bem de perto e terá grande dificuldade de se acomodar se tiver mais de 1,80 m.
Ao Volante
Se por fora a impressão é de que nada restou do antigo Ka, a idéia permanece quando se assume a direção do compacto. O interior com formas pouco convencionais deu lugar a uma cabine mais comum, até mesmo parecida com a do Fiesta – e isso também traz as falhas de acabamento do “irmão” maior.
O volante continua pequeno e ágil. Os engates do câmbio estão mais curtos e gostosos, passando um ar de esportividade ao carro. Em uma curva mais brusca, isso se confirma. A boa estabilidade do Ka foi mantida, apesar de algumas mudanças na suspensão. “Mudamos os amortecedores e as molas, mas mantivemos as características básicas de comportamento”, explica José Carlos Frias. Ainda bem, já que a boa resposta e a rapidez do Ka nas mudanças de direção são algumas de suas melhores qualidades.
O motor, apesar de ter ganhado 8 cv (com álcool) em relação à versão anterior – e agora ser flex, um grande benefício –, pareceu “amarrado”. Isso se deve a um fato e a uma impressão. O fato é que o carro avaliado tinha menos de 100 km rodados e ainda nem fora amaciado direito. A impressão denuncia um “buraco” entre a 2ª e a 3ª marchas, o que resulta em uma perda de fôlego em retomadas após uma lombada, por exemplo.
Outro item que não deixou uma boa impressão foi o conjunto de freio do Ka. Com pedal duro, o carro exigia força do motorista para parar. Em contrapartida, a nova divisão dos comandos no painel e o rádio mais bem localizado ajudam o motorista.
Equipamentos/Mercado
Para um carro de entrada, o novo Ka é muito bem “equipado”. Sim, com aspas mesmo, porque ele não traz equipamentos como direção hidráulica, trio elétrico ou ar-condicionado na versão básica. A vantagem sobre os demais, porém, vem em itens que, de acordo com a Ford, fazem muita diferença para o consumidor do segmento. O primeiro deles é a pintura dos pára-choques, na cor do carro em qualquer opção.
O segundo e mais importante é o conjunto de travas elétricas, que trabalha em parceria com o alarme, por sua vez, acionado no chaveiro. Tudo pelos R$ 25 190 anunciados na versão mais simples. Segundo a marca, esse é o preço que será praticado nas concessionárias – por isso, o consumidor não deve esperar grandes descontos.
Aí é que está a jogada para bater a concorrência. Enquanto a Ford anuncia o novo Ka por R$ 25 190 – já em sua versão 2009 –, a Fiat oferece o Palio Fire por R$ 25 830, a Chevrolet entrega o Celta em troca de R$ 25 886 e a Volkswagen cobra R$ 26 091 pelo Gol. Todos valores oficiais divulgados pelas montadoras.
Em uma breve pesquisa em concessionárias, porém, é possível checar que há descontos entre R$ 1 000 e R$ 2 000, o que, na prática, torna os modelos mais baratos que o Ka. Repetindo: tudo isso varia muito de concessionária para concessionária e a “pechincha” depende do cliente. A Ford promete o preço fechado, sem descontos nem ágil, ou seja, viu no site, pagou, levou, sem mais nem menos.
A grande série de pacotes que a montadora colocou à disposição inclui 12 opções para o Ka 1.0 l, que variam de R$ 25 190 a R$ 31 790 – o ar-condicionado está incluído na versão vendida a R$ 31 265 –, e sete para o modelo 1.6 l, entre R$ 31 800 e R$ 36 930.
Quem quiser ver o carro ao vivo, no entanto, terá de esperar. Apenas a partir de 2 de janeiro a rede de concessionárias da Ford receberá o novo Ka para test-drive e aceitará encomendas. As entregas estão programadas para o final de janeiro/início de fevereiro.
Embora a montadora não divulgue o volume de carros que pretende comercializar, espera-se que o Ka venda, inicialmente, 5 000 unidades. Se a previsão do presidente Lula se confirmar e a família do governador José Serra comprar dois modelos, porém, as vendas podem atingir o sonhado – e não divulgado – patamar de 10 000 carros/mês. Capacidade para isso a fábrica já tem. E o produto está no caminho certo.
Por[FastDriver]

